DIÁLOGOS ENTRE JECA E MACUNAÍMA: INTERFACES DO ANTI-HERÓI
Sônia A. Vido Pascolati
O tema proposto para este VII Congresso da ABRALIC “Terras e Gentes” nos leva a questionar as relações entre a literatura brasileira e o processo de definição da identidade nacional, considerando-se que a arte literária reflete contingências do contexto histórico-social e com ele dialoga. Na trajetória brasileira há dois momentos especiais em que a busca da nacionalidade se fez sentir de maneira mais significativa: no início do século XIX, quando o Brasil “conquistava” sua independência política, e o início do nosso século, após a proclamação da República, quando o país buscava a “independência cultural”. São dois momentos em que, politicamente, marcava-se a diferença entre o “eu” (Brasil) e o “outro” (Portugal/Europa), processo que não passou despercebido da arte, já que também ela empreendeu reflexões sobre o tipo brasileiro. Esse primeiro momento corresponde esteticamente ao Romantismo, que incluía em seu projeto o resgate das origens do país, ponto de partida para o estabelecimento daquilo que definia o caráter nacional. Na origem da nação o escritor romântico encontrou o elemento indígena, alçado então à condição de herói nacional. Já o movimento modernista, cuja primeira fase pretendia derrubar as verdades estabelecidas e cristalizadas, vem questionar esse modelo de herói adotado no século XIX e propor um novo modo de caracterizar o tipo nacional.
É no cenário dinâmico das duas primeiras décadas do século XX que surgem duas personagens emblemáticas da identidade nacional: Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato e Macunaíma, o “herói sem nenhum caráter” criado por Mário de Andrade. Apesar de próximas historicamente, circunstâncias que cercaram os anos que antecederam a Semana de Arte Moderna trataram de separar Lobato do grupo modernista, o que acabou por separar também as personagens. Todavia, nosso objetivo neste trabalho é apontar aquilo que as aproxima, procurando demonstrar o quanto de Macunaíma já podia ser vislumbrado em Jeca Tatu. Antes, porém, de as compararmos, acreditamos ser necessário traçar um itinerário da figura do herói na literatura brasileira – mesmo que breve e um tanto superficial –, afinal, o que pretendemos discutir são as transformações do perfil do herói literário até chegar ao anti-herói, de que são representantes as personagens já nomeadas.
O modelo de herói literário remonta aos escritores clássicos, que o apresentavam como ser que, por seus feitos sobre-humanos, aproximava-se dos deuses. Movido por uma força instintiva, quase sobrenatural, seu heroísmo seria tanto maior quanto fossem os obstáculos a serem enfrentados por ele. O herói medieval conserva muitas dessas características, acrescentando-lhe a idéia de que deve passar por provas que confirmem sua competência e possam garantir-lhe o merecimento de uma recompensa. Durante séculos esse modelo de herói resistiu sem grandes transformações, apesar de haver alguns questionamentos a respeito de sua validade como acontece em Dom Quixote, de Cervantes, que recorrendo à paródia procede ao rebaixamento da figura do herói por meio da sátira ao cavaleiro medieval. As aventuras mal sucedidas do Cavaleiro da Triste Figura procuram desmontar um modelo não só de herói literário, mas também uma visão de mundo já ultrapassada, chegando mesmo a questionar a imagem de herói redentor e justiceiro divulgada nos livros de cavalaria.
Contudo, é esse mesmo cavaleiro medieval que servirá de substrato ao herói romântico. Na Europa, o Romantismo resgatou o cavaleiro medieval, figura emblemática de coragem, força, cavalheirismo, espírito de conquista e bravura. No Brasil, o indígena foi revestido com essas mesmas características, definindo assim o perfil do herói nacional: forte, valente, guerreiro, conquistador, inteligente e sedutor, cujo ícone pode ser a personagem Peri, personagem central do romance O Guarani. A relação de vassalagem do cavaleiro para com sua dama (Trovadorismo) é reproduzida no romance de José de Alencar por Peri e Ceci, donzela européia a quem o indígena cultua como a uma santa. Peri passa por provas em que demonstra toda sua força e coragem, mantendo-se sempre fiel à devoção a Ceci, negando para tanto suas próprias raízes indígenas, processo que culmina em seu batismo, nos momentos finais do romance. É interessante notar que, num momento de definição da nacionalidade, o perfil do herói nacional vai ser traçado de acordo com modelos estrangeiros e afirmando uma sujeição do elemento indígena aos padrões culturais europeus.
Antonio Candido, no indispensável Formação da Literatura Brasileira, ao tratar do indianismo, estabelece um paralelo entre o olhar romântico sobre o indígena e a proposta modernista de resgate da nacionalidade por meio da figura do índio. Diz ele que
em nossos dias, o neo-indianismo dos modernos de 1922 (precedido por meio século de etnografia sistemática) iria acentuar aspectos autênticos da vida do índio, encarando-o, não como gentil-homem embrionário, mas como primitivo, cujo interesse residia precisamente no que trouxesse de diferente, contraditório em relação à nossa cultura européia. O indianismo dos românticos, porém, preocupou-se sobremaneira em equipará-lo qualitativamente ao conquistador, realçando ou inventando aspectos do seu comportamento que pudessem fazê-lo ombrear com este – no cavalheirismo, na generosidade, na poesia. (CANDIDO, 1993: 19)
No final do século XIX o modelo de herói na literatura brasileira sofre alterações, surgindo então a figura do anti-herói, que se sedimentará com o movimento modernista. Segundo Massaud Moisés, o anti-herói é fruto de um processo de desmitificação e humanização do herói que coincide com o aparecimento de representantes das classes sociais inferiores nos romances. O anti-herói é aquele que “possui debilidade ou indiferenciação de caráter, a ponto de assemelhar-se a toda a gente (...). O anti-herói não alcança emprestar altitude ao seu comportamento, seja positivo, seja negativo”; ao contrário, ele minimiza ou rebaixa as ações praticadas (MOISÉS, 1988:29).
Na literatura brasileira, num momento de transição entre Romantismo e Realismo, temos uma personagem representativa dessa mudança de paradigma: Leonardo, de Memórias de um Sargento de Milícias. Filho do acaso e abandonado pelos pais é criado pelo padrinho; em nada se destaca, em nada é produtivo, levando uma vida irresponsável e descuidada. Leonardo é um sujeito comum, e se se destaca em alguma coisa, é nas traquinagens quando criança e infrações quando adulto. É assim que o herói da modernidade nada terá de heróico. Nessa mesma linha constituem-se as personagens que são o centro de nossa análise: Jeca Tatu e Macunaíma.
Jeca e Macunaíma são personagens desmitificadoras na medida em que se contrapõem ao perfil do herói romântico, constituindo dessa forma a imagem do “anti-herói” literário. Jeca Tatu, apresentado ao público em 1914, no artigo “Urupês”, contrapunha-se à imagem idealizada do caboclo divulgada pela literatura regionalista, que por sua vez, havia transferido as características heróicas do índio para o caboclo, conservando o tom idealizante do herói nacional proposto pela literatura romântica. O caipira de Lobato não é nada idealizado, pelo contrário, se propõe a ser claramente o avesso do índio romântico e do caboclo regionalista, sendo até mesmo uma denúncia da tradição literária que insiste em conservar o mesmo substrato do herói nacional, como é possível notar logo nos primeiros parágrafos do artigo:
O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismou-se de “caboclismo”. O cocar de penas de arara passou a chapéu de palha rebatido à testa; a ocára virou rancho de sapé; o tacape afilou, criou gatilho, deitou ouvido e é hoje espingarda troxada; o boré descaiu lamentavelmente para pio de inambu; a tanga ascendeu à camisa aberta ao peito.
Mas o substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio em suma, sem faltar uma azeitona, dos Peris e Ubirajaras. (LOBATO, 1968: 278)
O Jeca de Lobato não será constituído desse mesmo substrato; o caboclo apresentado por ele “existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso”, sempre alheio aos acontecimentos políticos, “nada o põe de pé” (p. 279). Acontece a independência, a abolição da escravatura, a Proclamação da República e “o caboclo continua de cócoras, a modorrar... Nada o esperta. Nenhuma ferroada o põe de pé” (p. 280). Jeca tem dificuldade em discursivisar suas idéias, comercia apenas aquilo que a natureza lhe oferece gratuitamente, como um legítimo representante da “lei do menor esforço”, constrói sua morada de forma precária, mobiliando-a com o estritamente necessário. Mantém-se no mesmo lugar enquanto os recursos naturais são fartos: madeira, frutas, caça, terra fértil, e quando abandona um pedaço de chão, entrega-o esgotado àquele que vier atrás dele. Cultiva poucos alimentos – os que lhe dão menos trabalho, é claro – e sempre do mesmo modo, como plantavam seus avós, sem nenhuma nova técnica agrícola. Vai à vila aos domingos para a reza semanal e algumas compras; a ocasião mais importante de passeio à vila é sem dúvida o dia das eleições, data para a qual veste sua melhor roupa. “Vota. Não sabe em quem, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de gatafunhos a que chama ‘sua graça’” (LOBATO, 1968: 286).
Em todos os traços emprestados ao Jeca Tatu, fica clara a crítica social ao descaso dos governantes para com uma parcela da população que, em plena fase de urbanização do país, vê-se espoliada do direito às comodidades proporcionadas pelo progresso. O Jeca simboliza uma parte da população brasileira – talvez a que melhor represente o caráter nacional – que vai ficando à margem do processo de transformação das bases econômicas, políticas e sociais da sociedade brasileira. “Urupês” é a denúncia do abismo que se vai formando entre o campo e a cidade, e mais, entre a imagem desvirtuada e romântica do caboclo construída pela literatura regionalista. Para Reginaldo Pinto de Carvalho, em texto apresentado na 50ª. Reunião Anual da SBPC/1998, “o retrato impiedoso do Jeca poderia ser visto como criação de verdadeiro antimito”, na medida em que subverte a imagem tradicional do caipira e do herói indígena, observando o Jeca em seu universo concreto, não idealizado. Vasda Landers (1988) interpreta a contraposição do Jeca à figura idealizada do índio Peri, personagem de José de Alencar, como a criação do “anti-herói”, que acabará tornando-se um traço essencial das propostas modernistas de renovação da literatura brasileira. E é no perfil do anti-herói assumido pela personagem de Lobato que vislumbramos o parentesco entre Jeca e Macunaíma.
O “herói sem nenhum caráter” de Mário de Andrade é feio, negro, mentiroso, preguiçoso, cheio de doenças esporádicas, não trabalha, já que passa seu tempo observando o trabalho alheio e vive do que está à mão na natureza e do que consegue fazendo barganhas ou enganado os outros; desde muito novo demonstra grande interesse por sexo e é considerado inteligente por Rei Nagô, numa pajelança. Inteligência aqui é sinônimo de esperteza, pois vê-se no decorrer das aventuras do herói que ele possui grande capacidade de enganar os outros e sair-se bem nas mais variadas situações. Assim como o caipira retratado em vários contos de Lobato, Macunaíma é medroso, principalmente quando se vê sozinho em situações de perigo, e é também nômade como o Jeca, pois na obra símbolo do Modernismo há uma multiplicidade de espaços percorridos pelo herói. Do mesmo modo que o Jeca é praticante da “lei do menor esforço”, assim também Macunaíma repete, do início ao fim da obra, o antológico “Ai! que preguiça!...”, que se concretiza, por exemplo, no capítulo VI, quando o herói desiste de construir um papiri (“abrigo feito de folhas, na mata e à margem de rios, para resguardar da chuva” – Aurélio) para ele e os irmãos morarem na cidade.
Enquanto o Jeca é a denúncia da situação de abandono e exclusão de significativa parcela da população brasileira, – a que está no campo, deixada à margem do processo de urbanização do país porque destoa do novo cenário industrial e europeizado das grandes cidades, como se a ela fosse negada a identidade nacional – a peregrinação de Macunaíma por várias regiões do país representa metaforicamente a busca dessa mesma identidade na diversidade cultural brasileira. Walnice Nogueira Galvão faz os seguintes comentários acerca de Macunaíma, destacando que a multiplicidade racial que compõe o tipo brasileiro dificulta qualquer tentativa de definição da “identidade nacional”:
A personagem central é um índio – e seu nome indígena dá título ao romance, como de hábito na tradição indianista – que nasce preto para depois se tornar branco. Como acentua o subtítulo, “o herói sem nenhum caráter” traduz a concepção de que, através de incessantes cruzamentos raciais e culturais, os brasileiros, e quem sabe os nascidos em todo o continente americano, não são mais nem índios, nem negros, nem brancos. Eles são alguma outra coisa, e ninguém sabe ainda o quê. O velho problema da identidade nacional vem de novo à tona. (GALVÃO, 1979: 386)
Até mesmo a multiplicidade de lendas e mitos – recontados, recriados e até inventados – que permeiam o tecido narrativo de Macunaíma, caracterizam a obra como um apanhado das tradições folclóricas que povoam o imaginário popular brasileiro, revelando traços de sua essência, de seu caráter.
Numa época em que cidade e campo se rivalizam, pois, no início do século XX, a cidade era sinônimo de progresso enquanto o campo representava o “atraso” do país, Lobato constrói uma figura exemplar do universo rural que dialoga implicitamente com o modo de vida da cidade. Já a personagem de Mário de Andrade transita pelos dois espaços, o rural e o urbano, embora adquira novas feições quando deixa a mata para ir a São Paulo em busca da muiraquitã perdida. No capítulo V temos a narração de vários momentos da viagem do herói e seus irmãos a caminho da grande cidade; um deles é o do banho na água encantada de uma cova no rio Araguaia, responsável pela transformação radical na aparência do herói:
Mas a água era encantada porque aquele buraco na lapa era marca do pezão do Sumé, do tempo em que andava pregando o evangelho de Jesus pra indiada brasileira. Quando o herói saiu do banho estava branco louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas. (ANDRADE, 1999: 40).
Ao entrar num novo universo, o urbano, a fisionomia do herói se altera, apontando para a mudança da aparência do próprio país que se modernizava e, principalmente, que se industrializava, já que nesse mesmo capítulo Macunaíma começa o reconhecimento do novo espaço em que está inserido, cuja marca essencial era a máquina: telefones, buzinas, elevadores, automóveis, bondes, chaminés, enfim, “eram máquinas e tudo na cidade era só máquina!” (p.42). Avançando no aprendizado desse novo mundo, Macunaíma reflete sobre o significado do máquina na vida do homem da cidade, já que “a Máquina era que matava os homens porém os homens é que mandavam na Máquina...”, chegando à conclusão de que “os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens” (p. 43), sugerindo uma inversão de papéis: o homem deixa de ser criador para estar subjugado à sua própria criação, ou seja, o homem torna-se um ser automatizado, mecânico, longe da naturalidade possível no espaço selvagem, da mata, do campo. A “Carta pras icamiabas” também ilustra bem a transformação do herói, que adota a linguagem adequada à expressão citadina, formalizada e acadêmica, distante do falar coloquial e espontâneo do interior do país.
É possível perceber, dessa maneira, vários pontos de diálogo entre o “herói sem nenhum caráter” de Mário de Andrade e a personagem de Lobato, possibilitando a interpretação dos dois serem compostos do mesmo substrato. Ambas são personagens da literatura brasileira que marcam uma fase de transição tanto política quanto estética, pois se contrapõem ao modelo do herói romântico e definem novos contornos do caráter nacional.
A criação de personagens que procuram retratar o caráter nacional aponta o impulso da literatura de estar em sintonia com o novo contexto histórico, em sintonia com as transformações sociais e culturais por que passava o país no início do século, o que reforça a idéia de que literatura e história mantêm estreitas relações. A literatura é um grande palco em que desfilam muitas terras e gentes, sempre em diálogo, gentes de todas as épocas, de muitas estéticas, com muitas faces, heróicas ou não.
Referências Bibliográficas:
ALENCAR, José de Alencar (1997). O Guarani. São Paulo: Ática.
ALMEIDA, Manuel Antonio de (1998). Memórias de um Sargento de Milícias. 29. ed. São Paulo: Ática.
ANDRADE, Mário de (1999). Macunaíma. SP: O Estado de São Paulo/Klick Editora.
CANDIDO, Antonio (1993). Formação da Literatura Brasileira. Vol 2. BH/RJ: Editora Itatiaia Limitada.
CARVALHO, Reginaldo Pinto de (1998). Monteiro Lobato e o Modernismo. In: Anais da 50ª. Reunião Anual da SBPC. UFRN – Natal/RN.
CERVANTES, Miguel de (1998). O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha.
GALVÃO, Walnice Nogueira (1979). Indianismo revisitado.
In: Esboço de figura –
homenagem a Antonio Candido. SP: Duas Cidades.
LANDERS, Vasda (1988). De Jeca a Macunaíma - Monteiro Lobato e o Modernismo. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira.
LOBATO, Monteiro (1968). Urupês. São Paulo: Editora Brasiliense.
MOISÉS, Massaud (1988). Dicionário de Termos Literários. 5. ed. São Paulo: Cultrix.